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Tangerinas.

por Pedro Ramos, em 16.12.20

 

O sentido esférico do universo também está contido numa tangerina. Fruto pequeno, repleto de sumo como se sonham as pessoas, a casca arrepiada na ponta das unhas é logo o prenúncio do sabor dos gomos. Ácidas às vezes, amiúde doces, como a gente as tangerinas são arrebitadas, arrogantes e frágeis. Vêm em grupo, satisfatoriamente uniformes ao olhar desatento, porém cada qual dona do seu nariz, prontas para uma desinibida demonstração de força: come-se a tangerina com as falangetas em sumo, enterradas no subsolo da casca. Unha com carne. Desarmados, recusamos pegar uma faca ou outro utensílio cortante. Jamais poderia fruta tão pequena vergar humana astúcia. Mas logo os roedores de unhas, ó vítimas das cutículas arrepiadas, se levantam num pranto ácido. Faz parte da estratégia. E ainda nem chegámos à boca, pensam as tangerinas-irmãs, entretidíssimas. O gomo entra inteiro na fenda bucal, inofensivo. Antes, investigámos à transparência a presença de sementes, e toda a matemática inocente do jogo de sedução abre-se sem ábaco. Ansiamos saber com o que podemos contar. Somos imensamente estúpidos. A tangerina oculta as sementes pequenas e inúmeras no seu seio suculento, e só damos por elas quando o dente aguçado perfura a brancura amarga. Segue-se um jogo sujo de cuspidelas sucessivas, e por essa altura já o fruto ganha a partida, para gáudio das vizinhas. Há, certamente, estupendas tangerinas: secas por fora, sumarentas por dentro, sem nada a esconder, sem sementes para trincar. Onde nascem, o que desejam da sua vida-tangeril, por que serras e montes andaram até aqui chegar, ou deve antes perguntar-se: de que estufa plástica, de que combustível, de que pipeta saíram? A lição fundamental é aprender a amar todas as tangerinas, doces ou amargas. Aceitar a acidez de apenas uma é meio caminho andado para que as restantes, contemplativas lá do cesto da fruta em plena cozinha, ganhem pelo assassino uma consideração suplementar, e logo principiem adoçando-se, meio timidamente, como dizendo: é muito o amor que tenho a esta vida luminosa, mas se certa será a vinda da morte, ao menos que seja digna, ao menos que seja doce. Rebentam, verticais, no céu da boca. 

 

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Green and Tangerine on Red, Mark Rothko, 1956

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publicado às 22:54

O amor evidente.

por Pedro Ramos, em 04.12.20

 

Não há vergonha nem cansaço. Apenas algum medo. A vertigem que nos une num abraço se desfará logo após num desenlace terno. É feliz ser humano: a arte de ser-se é a mais árdua das concretizações. É preciso viver, farsa após farsa, a vida de outros, despindo-se as vestes numa noite fria, até se encontrar na carne dilacerada qualquer coisa com o aspeto, o cheiro, o sabor de uma verdade. Quantos não ficam perdidos nesse caminho de sacrifício, no elã da preguiça, na volúpia sedosa e lânguida de acreditar nossos e inéditos os carreiros já trilhados, o inocente espanto repetido de florestas habituais. 

O amor - é sabido -, cumpre sempre todos os propósitos, é contraditório e íntimo e selvagem, e é também a superfície delicada de um pêssego ou a pele de uma criança. Na arte de ser-se, também o amor cumpre múltiplas funções, e constrói acolá o que aqui destruiu, remenda amanhã o rasgão de ontem. Amar é brincar com o tecido do mundo: furar cortar picar abrir queimar mergulhar fingir esquecer florir cair: o tecido do mundo. O amor é que abre as janelas da casa, o amor é que risca o chão com garras de gato, o amor é que molha os campos à espera de alimento, o amor é que entra pelas mulheres adentro e faz delas um grito de amor, um metal cintilante a rebentar de amor nos braços. O amor faz por inventar-se, dá-se à luz. O amor existe apenas na invenção da casa, na busca do regaço. É evidente que o amor é evidente, fugaz e permanente, os pilares de uma casa quebrada sob o peso das suas memórias. O amor é que ilumina as ruas estreitas por onde se movem, curvilíneos e generosos, os agentes secretos do amor. Deixar-se entrar no amor significa assinar um contrato, e toda a força do contrato é a cláusula da sua destruição. É na morte que se cumpre a promessa do amor.

Farsa após farsa, ser-se é também descer as escadas recônditas da identidade até ao amor. Despirem-se as farsas é a estratégia dessa aproximação. E, no entanto, toda a vida é a experiência paradoxal de novas roupagens de amor. Antes de nascer um filho, pai e mãe desenham ao detalhe novas camadas sob as quais depositarão a vida. Crescer é deitar fora esses lençóis antigos, e por isso crescer é matar o pai e a mãe, substituir a memória por novas arcadas e abóbadas de uma construção involuntária: a catedral-futuro, a que também podemos chamar filhos, e que é, antes de tudo, o amor.

Ninguém envelhece nunca. A idade é a mais antiga desculpa do amor, recurso de estilo, artifício letal. As rugas na pele são a prova da passagem sob a ponte, não do tempo, mas do amor. Por isso, também envelhecer-se é ser-se muitas vezes, repetir-se atabalhoadamente, numa tentativa de se repetir o amor de que há memória, uma sombra que consome o objeto até lhe tomar o lugar, e o reflexo é, no final, uma imagem disforme, translúcida, débil do próprio reflexo escondido.  

Como nas artes do campo, lavrar e arear e arrasar a terra para destruir o velho-amor, e deixar no vazio a esperança de um recomeço fértil. Ciclo perpétuo de uma consciência individual repetida, isto é, universal: a ideia de se acordar, a ideia de se deitar fora esses lençóis antigos, a ideia de construir o novo-amor no lugar do velho-amor.

O espaço é exíguo. Precisamos ser brevíssimos e generosos: ceder o nosso modesto excesso a quem possa vir ocupar as frestas de um coração vazio, dividir condimentos de uma refeição serena, sobrepôr raízes na mesma terra fresca. Podemos concluir que o amor é todas estas coisas: o ser-se profundo, o adicionarem-se e removerem-se os lençóis antigos, o substituir-se sempre amor por novo amor, o envelhecer. E também vemos no amor uma gloriosa poupança de espaço num mundo que não nos pertence: as amplas cidades escassas, de luzes esparsas em janelas solitárias, talvez coubessem todas em meia dúzia de quintais de amor. O amor é um abraço e um laço e um cansaço que se aperta até ser um só, que se espreme e torna esguio entre os dedos geminados, cujo único lamento é o de não poder resumir e sumir o universo inteiro num pequeno berlinde pueril que se amanhasse no bolso das calças de um deus qualquer. 

 

"Personagens duma história de amor", 1960, Chave, colagem, esferográfica, guache, osso e porta-chaves sobre cartolina. Doação Cruzeiro Seixas, colecção Fundação Cupertino de Miranda


"Personagens duma história de amor", 1960, Cruzeiro Seixas, colecção Fundação Cupertino de Miranda

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publicado às 23:03


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