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1. Estava deitado ao comprido em cima da cama, fabulosamente desconfortável, lendo Alexandra Alpha. Algures numa passagem sobre a personagem de Sophia Beatriz (pág. 42), ocorre-me uma memória recente bastante difusa que me obriga a, rapidamente, abrir o computador, escrever esta contextualização breve (ponto 1), e avançar para uma pesquisa no google (volto já, acho que vale a pena).
2. Ok, não estava equivocado. A memória era de ter ouvido em segundo plano, ontem, no carro, uma parte disto. O vírus da tristeza que pode levar à morte das plantas.
3. O facto essencial que podemos aprender sobre vírus é que eles dependem sempre da nossa generosidade inicial. As suas malfeitorias acontecem somente por se alcandorarem nos mecanismos das nossas próprias células. É um pouco como se um ladrão nos pedisse emprestada uma radiografia para ultrapassar o trinco da porta.
4. Já mais de 100 milhões de árvores em todo o mundo morreram ou tornaram-se inférteis pelo vírus da tristeza dos citrinos (aqui uso uma expressão livre, para efeitos de estilo).
5. O corpo das plantas é um sistema totalmente à parte do dos animais. Seguimos cada um o seu caminho há uns tantos milhões de anos. Nós não temos xilema nem floema. Ainda assim, bebemos água, consumimos nutrientes e fazemos limonada.
6. Que lindo lindo sol. Nunca gostei do calor. Mas está lindo lindo o sol. Volto a mergulhar nas folhas do livro, imune ao vírus da tristeza. Que lindo lindo sol.

Van Gogh, 1888
tenho pensado bastante:
sobre o metaverso, o multiverso,
as equações paramétricas,
a ciência dos grandes dados.
mas o que me interessa mesmo é
beber uma cerveja,
comprar-te um vestido,
morrer em frente ao mar.
Tens um talento arcano, muito escondido, que te cresce como uma bolha de chiclete na boca de uma criança. É preciso remoer, amaciar, temperar novamente: para construir a esfera delicada de um sopro, para transferir dos pulmões para a boca o ar incrível de uma juventude quase a rebentar. Eu sei que vi tantas coisas nos teus lábios. Comemos pipocas no circo observando o espetáculo incrível dos nossos próprios corpos num trapézio. Fechámos os olhos no arrepio ansioso de ver balançar, sem rede, dois tristes futuros pendentes. Ninguém caiu no salto. Firmes, o destino assim os trouxe de novo ao solo colorido por muitos aplausos. Olhei-te, comovido, cheio de lágrimas. Disseste: ninguém caiu no salto. Demos as mãos. Aninhaste-te nos meus braços. Adormeci fresco como a erva ao nascer do sol.
Escreveu Herberto Helder:
As mães são as mais altas coisas que os filhos criam, porque se colocam na combustão dos filhos, porque os filhos estão como invasores dentes-de-leão no terreno das mães. E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos, e atiram-se, através deles, como jactos para fora da terra. E os filhos mergulham em escafandros no interior de muitas águas, e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos e na agudeza de toda a sua vida. E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa, e através dele a mãe mexe aqui e ali, nas chávenas e nos garfos. E através da mãe o filho pensa que nenhuma morte é possível e as águas estão ligadas entre si por meio da mão dele que toca a cara louca da mãe que toca a mão pressentida do filho. E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo, e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
Escreveu Roger Waters:
Mama's gonna make all of your Nightmares come true
Mama's gonna put all of her fears into you
Mama's gonna keep you right here under her wing
She won't let you fly but she might let you sing
Escreveu Daniel Faria:
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
Escreveu Marx:
A primeira preocupação do capitalista, ao empregar a maquinaria, foi a de utilizar o trabalho das mulheres e das crianças. Assim, de poderoso meio de substituir trabalho e trabalhadores, a maquinaria transformou-se imediatamente em meio de aumentar o número de assalariados, colocando todos os membros da família do trabalhador, sem distinção de sexo e de idade, sob o domínio direto do capital. O trabalho obrigatório, para o capital, tomou o lugar dos folguedos infantis e do trabalho livre realizado, em casa, para a própria família, dentro de limites estabelecidos pelos costumes.
Escrevo eu:
Dizemos: há sempre um regresso a casa. Mas queremos dizer: há sempre um regresso à mãe. Ao lugar germinativo de todas as ideias, os primeiros passos, as centenas de roupinhas alegres, o suspiro da primeira palavra, a amargura envergonhada de dezenas de mães atropelando-se na escadaria da escola primária: o teu primeiro dia, filho, o dia em que imaginei que te largava, mas não largo nunca, sinto os teus dedos no sofrimento da noite, sinto o calor ameno dessa vela que te ilumina a página, e sorrio ao lembrar a tua camisola marcada pelo giz do quadro, os éles, os pês, os quê-de-quá-quá repetidamente desenhados num caderno a linhas finas.
Lá longe a mãe aperta contra o peito uma memória esborrachada. Nunca tirámos a justa fotografia. O coração sucumbe um pouco mais, sempre num limite qualquer, afastando barreiras que são os dias, as horas, os minutos. Ninguém pode viver anos numa urgência. Porém, podem as mães. Como aves ansiosas cruzando os céus no breu profundo, gritando o nome dos filhos numa língua morta, agitando a ramagem. A mãe diz: meu filho, onde houver céu eu estarei lá. E o filho quebra num choro lento, as lágrimas apagam a vela, e a noite inunda o universo, como se fosse um abraço.
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